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Preenchendo o vazio que nos assola

Christian Gurtner 19/11/2017 242 1 5


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Era o final de mais um dia daquela semana que também chegara ao fim. Ela passa pelo portão de ferro da casa que há muito é seu lar. Entra na casa e vai direto para seu quarto, onde tira os sapatos e sente um grande alívio. Um frescor banha seus pés e, o que parecia uma leve dor, desaparece.

Aquilo era o ápice do dia. Um prazer inexplicável que trazia um flash de alegria que a fazia esquecer, por um momento, das contas não pagas sobre a mesa e das pilhas de roupas e objetos que foram acumulados durante toda a semana e que precisavam ser organizados para que ela, ao menos, conseguisse usar seu quarto.

Ela gostaria de não ter deixado a bagunça acumular, mas, dia após dia, ela não tinha tempo para isso. O trabalho a sugava oito horas de seu dia num intensivo e exaustivo trabalho onde, em meio a papelada, assedio de clientes e de executivos, reuniões, execução de projetos corporativos e deadlines absurdas ela conseguia, sim, algum tempo para ela no almoço e no fim da tarde, porém nem pensava em usar aquele tempo para arrumar a casa. Ela precisava descansar, se encontrar… talvez conversar com alguém.

Mas agora ela mal conseguia deitar em sua cama. O acúmulo era enorme. E aquela bagunça a fazia pensar em sua própria vida, como uma analogia trágica de sua existência.

Depois de uma hora deitada no pouco espaço que lhe permitia esticar o corpo, levanta e vai até o banheiro onde passa bons minutos se banhando. A bagunça ficaria para depois. Ela precisava se divertir. Passou o creme que tanto gostava, vestiu-se, maquiou-se e foi para uma das inúmeras festas que sempre aconteciam aos fins de semana na cidade. E era sempre assim: a busca infindável por diversão e prazer. Algumas dessas noites terminavam em sexo, outras não. Algumas terminavam em sorrisos embriagados, outras em arrependimento.


A ressaca do dia seguinte a faz questionar suas escolhas. Estava mais cansada do que nunca, o corpo dolorido, a cabeça doendo e mais um dia de bagunça. Passa em frente ao espelho e vê seu rosto. Ela é muito bonita, mas havia algo em sua expressão que a fez sentir mal. Talvez estivesse buscando a diversão e o prazer nos lugares errados. Talvez, um livro, um sofá ou simplesmente uma boa companhia já seriam o suficiente para arrancar da alma toda fuligem da pesada semana que a impregnara. Talvez. Mas a ressaca passa, a nova semana também. E novamente o ciclo se repete.

O cansaço permanece constante, um certo vazio parece eternizar em sua alma, mesmo tentando se convencer de que todo aquele prazer, diversão e liberdade a fazem feliz, mas o vazio está lá, escondido, cintilando em sua obscuridade e promovendo aquele incômodo que não se sabe de onde vem, como uma ressaca eterna.

Seria essa sociedade benéfica? Estaríamos vivendo escravos de um sistema que nos obriga a trabalhar tanto por tão pouco e buscar prazer recebendo um mal estar em retorno ? “Está tudo errado” — pensou, enquanto olhava para a bagunça sobre a cama.

Europa, 30.000 a.C.

Era o final de mais um dia dos incessantes dias que repetiam o mesmo e necessário ciclo de sempre. Ela entra na caverna que deram muita sorte de encontrar e que seria sua casa por algum tempo, até que tivessem que procurar algum outro lugar com mais abundância de alimentos.

Outras mulheres e crianças estão na caverna trabalhando em utensílios ou ensinando os filhos o básico para se tornarem independentes. As que não estavam grávidas estavam ou doentes ou acabaram de dar a luz para, em breve se engravidar novamente.

Um grupo de homens entra na caverna e a decepção toma conta da pequena comunidade: chegavam de mãos vazias, o que significava que a caça não rendeu frutos. E como já haviam comido todas as raízes que haviam encontrado, aquela noite seria de fome, na esperança de que no dia seguinte conseguissem caçar algo.

A vida era muito cansativa: precisavam dedicar praticamente todo o seu dia para encontrar alimento. Um dia sem trabalho era um dia sem comer. E muitas vezes, como naquela noite, nem mesmo o trabalho garantia a comida.

Ela agora ajudava os homens com as ferramentas de caça que haviam se quebrado ou perdido. Precisavam construir mais ferramentas para tentar novamente no dia seguinte.

Não havia tempo para se divertir ou ter prazer, não havia pausa, fins de semana e, muito menos, férias. Haviam, porém, momentos: uma risada ou brincadeira durante um trabalho manual ou casos e histórias em volta do fogo antes de dormir.

Não demora muito, todos dormem se apertando na caverna, em meio a um cheiro acre de suor envelhecido e fumaça. Um dos homens tenta fazer sexo com ela. O que em outro dia teria gerado até uma violenta disputa entre homens, dessa vez termina com a desistência do homem em frente ao cansaço e falta de energia.


No dia seguinte tudo recomeça. Os homens saem bem cedo enquanto as mulheres voltam também aos seus afazeres. Ela sai em busca de mais lenha para o fogo e passa pelo riacho. Olha para a água e vê o reflexo de seu rosto distorcido. É jovem, mas, ao mesmo tempo velha. Ela sabe, de uma forma diferente, que é bonita. Mas não perde muito tempo ali e continua sua busca. Encontra, por acaso, um arbusto com deliciosas e doces frutinhas. Come o máximo que pode e acaba de retirar o que não consegue comer para levar à caverna. Não há escolha, se ela não fizesse isso, não demoraria muito para que outros animais o fizessem.

As frutinhas são recebidas como um grande tesouro e todos comem, gerando uma briga ali ou aqui.

No fim do dia as mulheres estão novamente cansadas. Mas dessa vez escutam um murmúrio diferente se aproximando da caverna. Chegam os homens sorrindo. Finalmente há comida.

Em volta do fogo, todos de estômago cheio, histórias da caçada são contadas, sorrisos aparecem vez ou outra, alguns adornos como pulseiras e colares que foram feitos são exibidos e ela sente algo que pode ser chamado de felicidade. Aquele é um dos poucos momentos em que relaxam e não tem preocupações com comida, mesmo sabendo que no dia seguinte poderão passar fome novamente.

Em seu íntimo ela não tem ambição por diversão ou prazer. Ela os aproveita nos momentos em que surgem, que seu instinto pede, mas sua busca se resume em alimento e sobrevivência. Diariamente. Sem descanso. E ela está preenchida. Sonha, talvez, com mais abundância de comida. E sorrisos.

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