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Áudio

Em busca de um herói

Christian Gurtner 04/09/2015 162 1


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A busca do homem por deuses e demônios

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Esse episódio faz parte dos fantásticos podcasts mais antigos do Escriba Cafe que, por questões de direitos autorais, não estão disponíveis para download nem pelo feed, Spotify, etc, (nem mesmo pelo player fixo no site) sendo possível ouví-los somente pelo player no respectivo post.


TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO

(As transcrições dos episódios são publicadas diretamente do roteiro, sem revisão, podendo haver ainda erros ortográficos/gramaticais e, assim, pedimos que marquem os erros e deixem uma nota para que possamos corrigí-los)

Ler a transcrição completa do episódio

Um antigo poema épico narra a história de Beowulf. Um herói escandinavo que viajou até o reino do rei Hrothgar a destino de salvá-los de um terrível monstro.

O filme de 2007, do diretor Robert Zemeckis, se baseou na lenda e propôs uma perspectiva adiante, dizendo que o monstro, de certa forma, fora criado pelos próprios humanos e que agora eles rezavam por um herói a fim de salvá-los do maligno monstro, ou porque não, da própria cria.

Hoje, talvez, tenhamos criado monstros demais. Hoje, talvez, estejamos rezando por um herói.

O mundo corrupto

O mundo se encontra em um silencioso caos. A sociedade se tornou uma bolha, um inchaço sob a pele que poderá a qualquer momento explodir ou simplesmente se degradar e diminuir até que não exista mais.

De uma forma ou de outra, nos sentimos, em graus e intensidades diferentes, de mãos atadas, prisioneiros, produtos de uma fabricação em série.

Vemos nossa segurança e estabilidade nas mãos de políticos corruptos, vermes imunes às leis e punições. Somos banhados em violência e maldade. Vivemos num estado onde moramos em prisões mais fechadas que as próprias penitenciarias.

Assistimos, sem reação, a toda burocracia e leis morais que impossibilitam qualquer sentido de justiça ou igualdade. E o pior: somos rotulados no sistema como iguais. Somos iguais aos bandidos, aos assassinos, aos estupradores e aos pedófilos.

Eis então, que uma pessoa, até então honesta, rouba uma galinha em nome do desespero da fome e se torna companheiro de cela de assassinos cruéis.

Vemos os políticos ganharem salários e benefícios que, em um ano, somam o que um pobre trabalhador não ganhará em sua vida inteira. E mesmo assim, como se fosse pouco, muitos políticos ainda roubam.

O abismo social é globalizado. Um continente vive na miséria mesmo sabendo do fato que somente 3% de todo o dinheiro gasto no mundo com armas seria o suficiente para colocar todas as crianças nas escolas. Detalhe: Com saúde.

Não temos a quem recorrer, tudo necessita de burocracia… De democracia. E essa última, não costuma funcionar em países onde o povo miserável vota sem ao menos saber no que votou, ou em quem votou. Esse mesmo povo calado é o culpado da falência da democracia. E assim, cria-se um círculo vicioso.

O que nos resta? Rezar? Protestar? Assistir tudo passivos e impotentes?

Talvez um herói devesse surgir.

Surge um herói

Avistaríamos sua embarcação surgindo através dos mares.

Nosso herói chegaria sustentado pelo seu passado glorioso e sua coragem inexplicável. Iria até aos líderes corruptos que, até então, eram intocáveis, os pegaria pelo pescoço e os jogaria para fora de nossas terras.

Instituiria justiça e prosperidade. Destruiria todo sistema burocrático e imporia o respeito para que ninguém ousasse roubar ou se corromper. Em menos de um ano não existiria mais pobreza, todos teriam as mesmas oportunidades de enriquecer e a vida seria bela.

Um herói. Realmente é o que precisamos.

Esse herói seria o ser humano perfeito. Talvez até mais. Ele seria o único com força e coragem para mudar tudo. Conseguiria ver a verdade mesmo diante da mais convincente mentira. Passaria por cima de toda burocracia. Jogaria nas celas qualquer assassino ou político corrupto sem precisar sequer de julgamento. Ele salvaria os bons e destruiria os maus. Nada poderia impedi-lo de fazer o bem e jamais deixar que qualquer injustiça ou miséria reinasse na terra.

É uma ideia maravilhosa! É? Talvez ela seja mais terrível do que se imagina.

Os terríveis heróis

Existe um velho ditado: “Para quem sabe ler, um pingo é letra”. E, usando esse ditado, afirmo que muitos já entenderam do que estamos falando.

Esse tipo de herói já passou aos montes pela terra. Já os desejamos no passado e eles ouviram nossas preces. Hoje, muitas nações os desejam, e eles continuam surgindo.

Para os que ainda, compreensivelmente, não captaram a mensagem, vou contar uma pequena história real de nossa sociedade.

Há muitos anos, num reino muito distante, o grande número de habitantes passava por uma época de tristeza, onde outros reinos invadiam e tentavam controlar tudo e todos. As pessoas estavam empobrecendo e guerras sempre batiam à porta. Esse povo indefeso precisava de um herói.

O herói surgiu, se ergueu dentre as massas e, com um enorme exército, obteve poder para expulsar os maus e dar alegria ao seu povo. Suas palavras eram valorosas. Ele queria que o reino voltasse a prosperar e todas as pessoas tivessem uma boa vida.

Com seu enorme exército ele marchou pelo reino e matou milhões de pessoas, subiu ao poder e fez de suas palavras a lei regente. Não aceitava oposição e não permitia que ninguém saísse da linha.

O saldo final do reinado desse herói foi de aproximadamente 70 milhões de pessoas mortas e uma miséria soberana numa China que perdera sua cultura e tradição para valores particulares de um só homem: Mao-Tse Tung.

Humanos, sempre humanos

Não importa se as intenções são boas, se os corações são bons e se a vontade de fazer o bem e a justiça são predominantes. Nada disso importa, pois, quando um único ser humano obtém o poder de controle absoluto sobre os outros, para transformar a humanidade em seu modelo ideal de sociedade, ele vai cometer injustiças e irá causar mais tristeza. Irá criar mais monstros.

A razão disso é muito simples: nenhum humano está livre dos erros e dos defeitos. Todos nós erramos. E o que é pior: somos cheios de defeitos. Esses defeitos são muito naturais e inofensivos até que tenhamos o poder de transformá-los em catástrofes. Dar poder absoluto a um ser humano cheio de defeitos é o mesmo que dar uma metralhadora a um assassino com raiva de tudo e de todos.

Somos animais, nascemos assim. O egoísmo, a raiva, o medo e a violência estão incrustados em nossos genes como uma fórmula essencial para nossa sobrevivência. Precisamos deles, principalmente do medo. Um ser humano que possui um poder tão grande sobre todos os outros, perderá boa parte de seu medo primordial e libertará, em grande escala, o egoísmo, a raiva e a violência, que se tornarão armas para impor seu ponto de vista.

Ah, os pontos de vista… Chegamos então ao cerne da questão.

Anatomia dos tiranos

Vou contar para vocês algo sobre heróis. Já publicaram até livros sobre eles. Inclusive tenho aqui, na minha frente, um livro citando vários desses heróis. Só que nessa publicação eles ganham outro nome. O título é “Os Ditadores Mais Perversos da História”. Esse livro é de autoria de Shelley Klein e foi publicado no Brasil pela editora Planeta. Em seu conteúdo, conhecemos a biografia de vários “heróis” que chegaram para salvar suas nações. Temos aqui Herodes, Gêngis Khan, Chaka Zulu, Stalin, Hitler, Mao-Tsé Tung, Papa Doc, Pinochet, Sadam Hussein e vários outros.

O mundo possui pilhas e mais pilhas deles.

Mas o pior de tudo vem agora: uma grande parte desses tiranos cruéis não eram homens maus, pelo contrário, o objetivo deles era transformar o mundo num lugar melhor e mais justo para se viver. E foi exatamente por isso que se tornaram opressores e cruéis. Achavam que sua ideia de mundo perfeito era a ideal e não deixariam ninguém atrapalhar ou se opor a elas, classificando os opositores de inimigos e maus e, assim, matando pessoas e destruindo nações inteiras por isso.

Surge então uma pergunta: Ao invés de diminuído, não seria o medo ampliado, ao ponto da neurose, nessas pessoas com poder absoluto?

O herói que nunca virá

Mas por que somos assim? Eu não conseguiria responder essa pergunta, porém, podemos analisar algumas interpretações.

Muito de nosso natural se perdeu nas regras e condicionamentos. Nietzsche afirmava que nossa sociedade está em decadência e que o fator primordial se encontra, dentre outros, no cristianismo.

De acordo com o filósofo, o cristianismo do passado moldou toda uma vivência de fraqueza e sacrifício, a qual estamos hoje mergulhados. Sacrificamos nossa liberdade, nosso orgulho, nossa confiança no espírito e principalmente a confiança em nós mesmos. A moral afoga qualquer tentativa do natural de se expor. É o nojo e muitas vezes o ódio pelo sexo, pelos prazeres mundanos, pela alegria mundana. Prazer e alegria somente em um deus. É o desprezo pelo próprio homem e sua natureza. Vivemos hoje regidos pela moral que gera covardes, que viram a face para o outro tapa, de automutiladores, do nojo ao nosso próprio corpo como carne, como pecado. Se Nietzsche interpretou corretamente, estamos nos tornando fracos. E aí está mais um motivo pela necessidade de heróis, pela aceitação desses heróis.

Todos os cristãos acreditam que Jesus voltará a terra. E ele voltou. Está lá em Brasília, o tal do Inri Cristo. Tem cabelos compridos, barba e até se veste como o Jesus de 2000 anos atrás. Mas todos o chamam de louco e mentiroso. Por quê? Porque ele não pode fazer milagres, não pode andar sobre a água e não ressuscita os mortos. E aí se encontra outra fraqueza: Acreditamos em milagres divinos e somente através deles aceitaremos o novo messias, o que facilmente nos convida a crer que ele nunca chegará. E, se chegar, será chamado de louco. Então por que os cristãos continuam esperando, pregando, se sacrificando?

Há muito que deixamos os deuses em segundo lugar. Hoje, adora-se nada menos do que as religiões: católicos acreditam em santos; evangélicos os abominam; muçulmanos acreditam que o messias foi Maomé; e judeus nem sequer acreditam que algum messias já desceu à terra. E ao mesmo tempo em que bilhões disputam crenças e dogmas criados pelo próprio homem, essas próprias religiões consideram o homem somente um pecador. Não se pode crer e confiar em si mesmo. É necessária a intervenção de um heróipara nos salvar. E a criatura questionar o poder de seu criador de criar, vira uma grande crise existencial. É por isso que definitivamente criamos deuses, heróis e messias. Na maioria das vezes, esses heróis são projetados como humanos com qualidades superiores as que somos condicionados a ter hoje. Contraditório? Confuso?

Para evitar mais mortes e guerras por causa de tantas contradições e diferentes pontos de vista, tivemos que criar um analgésico global.

Alguns gostam de azul e odeiam o roxo. Outros gostam do roxo e acham que o azul faz mal para os olhos. Se um desses recebesse poder absoluto, iria fazer com que sua cor predileta dominasse o mundo, causando náusea e ódio nos que odeiam aquela cor. Mas se cada um pudesse usar a cor que quisesse, o sentimento de que determinada cor devesse ser a única permitida, ficaria adormecido no conforto de poder viver com a cor que quiser.

Essa comparação grotesca resume o porquê da maioria dos países viverem numa democracia. Contudo, muitos numa democracia com religiões e ideologias dominantes, ensinadas nas escolas e pregadas nos tribunais. É o instituto da fraqueza e do erro humano em sua mais gritante expressão.

Os bons heróis

“Se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder.” — Abraham Lincoln.

Mas será que somos tão corruptíveis? Será que ninguém seria capaz de reinar com sabedoria e justiça sem deixar que seus pontos de vista causem tragédias?

Seres humanos são animais que vivem em bando. Devemos focar em um líder, mas esse líder deve viver em função do coletivo e submetido ao coletivo. Se o líder ameaça de qualquer forma a evolução, deve ser destituído. Não pode ter poder de fazer suas ideias e pontos de vista se tornarem lei. A liderança política nada mais é do que um emprego, onde o patrão é o próprio povo, que demitirá seu empregado caso ele não trabalhe direito.

Um herói deixará de ser bom se obtiver poder absoluto. Talvez tenha chegado a hora de sermos todos heróis. Mas heróis que dependem uns dos outros, heróis que lutam para que os fracos e oprimidos também se ergam como heróis.

São esses os bons heróis que devemos desejar. Como os cavaleiros que erguiam suas espadas e iam lutar por sua pátria contra os invasores, contra os tiranos. Os heróis que salvam as donzelas dos dragões, os que arriscam a vida para salvar a vida dos outros, os que têm força e coragem para questionar, os que dedicam a vida a ajudar, a salvar, a dar vida, os que se tornam símbolos de coragem e força para que queiramos nos elevar como homens superiores. Como seres humanos. Como heróis.

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