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Áudio

Inferno

Christian Gurtner 07/08/2019 682 5 5


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    Inferno Christian Gurtner

De onde surgiu o conceito de inferno? Conheça a evolução desse lugar — mítico ou real- pela história das civilizações.

Pesquisa, roteiro, narração e edição: Christian Gurtner

Participação especial: Nilton Giese (https://www.spreaker.com/show/meditacoes-e-predicas)

Mapa do Inferno, de Botticelli
Mapa do Inferno, de Sandro Botticelli

PATRONOS

Esse episódio foi possível graças ao apoio de Samuel Bezerra de Lima, Valdemar Arantes Neto, Pacifico Fernandes, EDMAR SILVERIO PEREIRA, Karl Milla, Silvia Mitsu D’ Avola, Luís Andrade, Miguel estevão santos correa, Silvia Mitsu D’ Avola, José Vitor Hisse Cabral, Etel Sverdlov, Miguel estevão santos correa, Igor Jerônimo de Moura

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TRILHA SONORA

  • Abyss — Myuu (http://www.thedarkpiano.com/)
  • Neverday Teaser — Sacha Ende (filmmusic.io)
  • Intermezzo — Frederik Magle (www.magle.dk)
  • Gathering Darkness — Kevin MacLeod
  • Vision of beauty in the land of the dead — Frederik Magle
  • Phantasm — Kevin MacLeod (filmmusic.io)
  • Ghost Processional — Kevin MacLeod
  • Dark Choir
  • Tortured Soul — Myuu
  • Road to Hell — Kevin MacLeod
  • Loneliness — Frederik Magle
Gehena nos dias de hoje

BIBLIOGRAFIA

  • CHOKSI, M. Ancient Mesopotamian Beliefs in the Afterlife. Disponível em: <https://www.ancient.eu/article/701/ancient-mesopotamian-beliefs-in-the-afterlife/>. Acesso em: 2 jun. 2019.
  • MARK, J. J. The Egyptian Afterlife & The Feather of Truth. Disponível em: <https://www.ancient.eu/article/42/the-egyptian-afterlife–the-feather-of-truth/>. Acesso em: 5 jun. 2019.
  • STRAUSS, M. The Campaign to Eliminate Hell. Disponível em: <https://www.nationalgeographic.com/news/2016/05/160513-theology-hell-history-christianity/>. Acesso em: 5 jul. 2019.
  • The Epic of Gilgamesh — History. Disponível em: <https://www.historyonthenet.com/the-epic-of-gilgamesh>. Acesso em: 3 jun. 2019.
  • ZALESKI, C. hell | Description, History, Types, & Facts, 2019. (Nota técnica).

TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO

Por mim se vai à cidade dolente,
Por mim se vai à eterna dor,
Por mim se vai a perdida gente.

Justiça moveu meu alto criador,
Que me fez com o divino poder,
O saber supremo e o primeiro amor.

Antes de mim coisa alguma foi criada
Excetos coisas eternas, e eterno eu duro.
Deixai, o vós que entrais, toda a esperança!

Divina Comédia, Inferno, Canto III — Dante Aliguiere

(As transcrições dos episódios são publicadas diretamente do roteiro, sem revisão, podendo haver ainda erros ortográficos/gramaticais e, assim, pedimos que marquem os erros e deixem uma nota para que possamos corrigí-los)

Ler a transcrição completa do episódio

Esse foi o início do Canto III do Livro Inferno, da Divina Comédia. Essa obra de Dante Aliguiere é responsável por boa parte da visão que os cristãos tem do inferno, e não a bíblia, como muitos pensam.

Na verdade, o Inferno nunca fora, diretamente, tratado pelas religiões abraâmicas, sendo fruto de interpretações e até invenções posteriores.

Mas existe, de alguma forma, um inferno?

Eu sou Christian Gurtner e esse é o Escriba Cafe

Mesopotâmia

Na Mesopotâmia, berço da civilização, está também as primeiras ideias documentadas de vida após a morte.

Os sumérios que se instalaram ali por volta de 5.000 a.C., construíram as primeiras cidades registradas pela história humana e possuíam uma espécie de religião politeísta, onde os deuses eram mais mundanos do que relacionados com questões após a morte.

Eles acreditavam que a vida após a morte era como a vida na Terra, só que mais entediante, já que sentimentos e sensações como alegria e dor não existiam, somente uma calma solidão diária.

Em alguns outros textos da época, porém, pode-se ver esse pensamento sendo modificado com tempo, já que narrativas de um mundo dos mortos em festa já foi encontrado.

Egito

Próximo a Mesopotâmia, o Egito antigo desenvolvia mais complexos rituais mortuários.

Os egípcios tinham uma enorme preocupação com a vida após a morte. Desenvolveram até mesmo livros cuja função era ensinar, preparar e guiar as pessoas após partirem. O Livro dos Mortos, por exemplo, era uma completa narrativa da jornada final.

Ao contrário dos mesopotâmios, os egípcios acreditavam que a vida após a morte era também dividida por classes sociais e hierárquicas de acordo com a patente e riqueza da pessoa enquanto viva.

Os mortos precisavam estar munidos de poder mágico e moral para quando aparecessem diante do deus Osiris. Dessa forma, os rituais funerários egípcios se tornaram cada vez mais elaborados. Mumificação, adornos, amuletos, magias e até mesmo depoimentos sobre a inocência do morto eram colocados junto ao corpo para garantir passagem e sucesso no tribunal divino.

Já diante do deus Osiris, aqueles que tivessem sucesso no julgamento ganhavam a vida eterna, enquanto os que falhassem, eram devorados por Ammut, o devorador de almas.

O Egito é a primeira civilização que documenta uma espécie de julgamento dos mortos, porém, não acreditavam em nenhuma espécie de danação eterna.

Grécia e Roma Antiga

Os gregos antigos também desenvolveram uma rica mitologia que influenciou várias outras religiões e civilizações posteriores, como a nossa.

A vida após a morte fazia parte dessa mitologia, onde, na era arcaica, acreditava-se que a alma vivia em um estado que não era nem prazeroso nem desagradável.

Hades era a terra dos mortos, dominada pelo deus de mesmo nome e sua esposa, Perséfone, que vivia ali como prisioneira.

Posteriormente, principalmente entre os Romanos que absorveram a mitologia grega, acreditava-se em um julgamento após a morte, onde os merecedores viveriam no maravilhoso Elysium ou se teriam, antes, que pagar por algum crime. O tempo de tortura ou sofrimento para esse pagamento, dependia do crime cometido e não havia também nenhum conceito de um inferno onde se passaria a eternidade em sofrimento.

Havia, no entanto, rituais funerários que precisavam ser realizados para que o morto conseguisse chegar até seu julgamento. E para isso ele precisava atravessar o rio Estige, que separava os mundos dos vivos e dos mortos.

Para atravessar, ele precisava pagar uma moeda a Caronte, o barqueiro, e por isso, tinha-se o costume de se colocar uma moeda junto ao corpo da pessoa falecida.

Outras civilizações

O conceito de um inferno onde uma alma sofre por toda a eternidade, parece não ter vindo da antigüidade e ser exclusiva das religiões abraâmicas.

Será?

O Inferno Abraâmico

A confusão sobre o inferno começa com as traduções. Há algumas palavras gregas e hebraicas na bíblia que foram traduzidas para “Inferno” principalmente por causa das crenças pessoais do então tradutor.

De fato, Gehenna é a palavra mais usada para definir esse lugar. De todas as 13 menções de palavras que foram traduzidas para Inferno, Gehenna é responsável por 12 delas e o mais importante: todas as referências nas palavras de Jesus são usando o nome Gehenna.

E Gehenna nada mais é do que a região de um vale, que existe até hoje e que, no passado foi usado como local de sacrifícios em rituais pagãos e que foi incendiado pelo rei Josias em sua campanha contra a idolatria.

Aproveitando o fogo, as pessoas passaram a queimar ali o seu lixo, até mesmo cadáveres humanos, prática que se manteve até o tempo de Jesus, quando Gehenna se mostrava um lugar fétido e constantemente em chamas, o que se tornara um local perfeito para usar de forma simbólica e que, posteriormente foi traduzido para Inferno.

Jesus menciona Gehenna 11 vezes e nenhuma vez o inferno.

A versão islâmica do inferno no Corão é Jahannam, uma também posterior tradução de Gehenna e possui várias similaridades com o inferno criado posteriormente pelos cristãos.

Na verdade, nos primórdios do Cristianismo, não havia um consenso sobre o inferno. O filósofo cristão, Orígenes, por volta do século III d.C. acreditava que os pecadores eram punidos após a morte, porém somente o suficiente para pagar por seus pecados. Essa doutrina, chamada de universalismo, pregava que todos poderiam ser salvos e se reunirem com Deus — até mesmo Satã. (STRAUSS, 2016)

Porém, no ano 426, Agostinho de Hipona foi quem modelou a visão de inferno que se tornaria oficial pelos próximos 1500 anos. Conhecida como doutrina do Tormento Eterno Consciente, define que o inferno existia não para redimir pecadores e sim para satisfazer a demanda por justiça. O inferno era literalmente um lago de fogo onde os condenados queimariam sem ser consumidos e sofreriam sem morrer.

A doutrina de Agostinho recebeu criticas futuras, com argumentos de que como um Deus do amor poderia colocar alguém num tormento eterno não permitindo sequer que a pessoa morra? Além do mais, seria justo um simples ladrão de galinhas receber a mesma punição que um estuprador assassino? E os bilhões de pessoas de outras crenças?

Essas perguntas foram respondidas, de forma fictícia, no Inferno de Dante, com seus círculos divindindo os pecadores e ajudando a elaborar uma nova visão de inferno que perdura, em alguns meios, até hoje.

Mas então, o que é o inferno?

Há um ditado judaico que diz:

“os homens são criadores do seu próprio inferno”

O Inferno de Dante

Uma informação curiosa. Se você nunca leu ou não se lembra da Divina Comédia, o bônus desse episódio será resumir, como é o Inferno de Dante.

De acordo com o poema, o inferno tinha o formato de um enorme funil (você pode visualizar a interpretação visual desse inferno através da obra de Botticelli, que disponibilizamos no post desse episódio em escribacafe.com.

O funil era composto por nove círculos, como se fossem andares. Em cada círculo ficavam as almas dos condenados de acordo com seus pecados ou crimes.

No primeiro círculo ficavam aqueles que nunca souberam da existência de Cristo ou que não foram batizados. Nesse círculo não havia castigo ou sofrimento. A única pena para essas pessoas era não ficar ao lado de Deus.

No segundo círculo ficam aqueles que cometeram o pecado da luxúria. Eles são punidos sendo empurrados para frente e para trás por fortes ventos que os impedem de ter paz ou descanso.

No terceiro círculo estão os pecadores da gula. Lá eles são forçados a ficar numa lama imunda que é produzida por uma eterna chuva gelada.

Os gananciosos ficam no quarto círculo com grandes pesos empurrados por seus peitos, simbolizando a sua trajetória egoísta.

No quinto círculo estão os raivosos pecadores da Ira que ficam lutando furiosos entre si no rio Estige.

Os hereges ficam no sexto círculo, que são castigados em tumbas flamejantes por toda a eternidade.

No sétimo círculo estão aqueles que viveram da violência. Sendo condenados e queimar afundados em rios de sangue e fogo. Os suicidas tornam-se arbustos e os blasfemos e sodomitas ardem em um deserto de areia e chuva escaldante.

O oitavo círculo é habitado pelos fraudadores, como políticos corruptos, hipócritas, charlatões, falsificadores etc. Cada grupo com seus respectivos castigos.

O nono círculo é onde está Satã. E ali ficam os que Dante considera os piores de todos: os traidores. Passam a eternidade congelados em blocos de gelo e guardados pelo próprio diabo

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